Uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), feita na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, envolvendo 13 escolas públicas e particulares da Capital e 40 de Niterói (ex capital do antigo Estado do Rio) e São Gonçalo, identificou a ocorrência de casos constantes de violência em 68% das instituições pesquisadas, sendo que em 85% delas não havia psicólogos. Além dos meios de comunicações, as redes sociais também tem registrado casos de maus-tratos, brigas entre colegas e conflitos com professores foram as ocorrências mais comuns.
Realizada entre 2010 e 2011, a pesquisa foi apresentada nesta segunda-feira (23) durante o 3º Ciclo Internacional de Conferências e Debates: Crises na Esfera Educativa - Violências, Políticas e o Papel do Pesquisador, na Faculdade de Educação da UFF, em Niterói. A coordenadora da pesquisa, Marília Etienne Arreguy, doutora em saúde coletiva e professora de psicologia do Departamento de Fundamentos Pedagógicos da Faculdade de Educação da UFF ressaltou que, a partir dos dados qualitativos, que considera os mais relevantes, é possível identificar que, mesmo nas instituições em que o nível de violência é relatado como baixo, informações dadas pelos próprios entrevistados contradizem a afirmativa. “Houve entrevistados que disseram que a violência era baixa e que o camburão da polícia só passava na escola de vez em quando".
Dentre as instituições pesquisadas, 45% eram estaduais, 35% municipais, 3% federais e 17% particulares. A pesquisadora lamentou a ausência de profissionais de psicologia e de assistência social dentro das escolas, sobretudo nas públicas, e concluiu que a violência crescente nessas instituições de ensino é acentuada pela falta de apoio aos alunos envolvidos como vítimas ou protagonistas dessa violência. “Alguns funcionários riram quando perguntados se havia psicólogos nas escolas e respondiam que, se faltava professor, ainda mais psicólogos. Apenas uma escola pública, no Rio, tinha um contingente minimamente razoável de psicólogos".
Segundo Marília Arreguy, a maioria dos alunos considerados violentos é encaminhada para o serviço público de saúde e muitos pais acabam não levando os filhos para a consulta com um psicólogo, por variados motivos, como falta de dinheiro para pagar as passagens, ou de tempo para fazê-lo, pois é grande o número como chefe da família, por preconceito, ou por falta de profissionais para atendê-los, entre outros. “A violência é fundamentalmente social, contextual e humana. Essa agressividade inerente ao ser humano precisa ser trabalhada nas escolas para que ela [a agressividade] não se transforme em violência e ajude o aluno a viver melhor. Esse trabalho não está sendo feito ou está sendo feito de modo ineficiente. Essas crianças estão sem assistência e acabam, muitas vezes, sendo medicadas, como se esse fosse apenas um problema do indivíduo".
A educadora criticou as linhas de pesquisa e projetos “estigmatizantes" que focam apenas na identificação de crianças que sofrem "bullying" ou têm perfil violento. “Claro que existem crianças e jovens com mais dificuldade na relação intersubjetiva, mas o problema é mais amplo, é uma questão da sociedade. A violência está sempre ligada à relação de poder, de subjugação de um sujeito em relação ao outro, ou mesmo é decorrente de formas de opressão institucionalizadas".
O estudo mostra também que 73% dos profissionais entrevistados disseram ser a favor da ajuda de um psicólogo atuando em auxílio à educação. Muitos professores disseram ter sido agredidos e ameaçados por alunos. “Precisamos de recursos públicos, concursos, mais psicólogos e assistentes sociais nas escolas, professor bem pago e trabalhando com satisfação", observou Marília Arreguy. Segundo ela, na cidade do Rio, a situação é um pouco melhor que nos outros municípios, já que, na capital, existe contingente de psicólogos atuando nas coordenadorias regionais de educação, oferecendo suporte profissional a pais e educadores.


