A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República divulgou nota de repúdio à explosão de uma bomba no prédio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio de Janeiro, na tarde desta quinta-feira (7). A SDH classificou o episódio como “atentado" e se colocou à disposição das autoridades do estado para colaborar com as investigações. “A Ordem dos Advogados do Brasil tem sido um baluarte na defesa da democracia e uma referência para a garantia dos direitos humanos no Brasil. O governo federal seguirá atento e está à disposição para colaborar com o governo do estado do Rio de Janeiro para a identificação dos responsáveis", diz o texto.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) também divulgou nota de repúdio à explosão e cobrou apuração rigorosa dos fatos e punição aos “que pretendem negar ao Brasil o caminho da democracia e das liberdades". A CNV disse ainda que “há três décadas o Brasil e o povo brasileiro decidiram superar o período de violência e medo gerados pelo golpe civil-militar imposto em 1964. A população apostou na democracia e nas liberdades para enfrentar o desafio de construir um país justo e próspero, que gere oportunidades para todos".
A Polícia Federal vai ajudar na investigação da explosão. De acordo com a assessoria da OAB, pela entidade ser nacional, a PF vai participar da apuração, ao lado do Esquadrão Antibombas da Polícia Civil. A sede da OAB no Rio, localizada na Avenida Marechal Câmara nº 150 e onde cerca de 600 pessoas circulam pelo prédio diariamente, foi evacuada pela polícia por volta das 16h devido à explosão de uma bomba no 8º andar do prédio, nesta quinta-feira (7). Ninguém ficou ferido com a explosão. De acordo com o Corpo de Bombeiros, o Disque Denúncia recebeu uma informação sobre a existência de três bombas no prédio. Após uma varredura no prédio da OAB agentes do Esquadrão Antibombas, da Polícia Civil, encontraram três explosivos conhecidos como “cabeção de nego", muito comum em festas juninas, que fazem muito barulho, mas não têm poder de destruição. Segundo a denúncia, elas seriam uma represália aos trabalhos da Comissão da Verdade no Rio, que serão presididos pelo ex-presidente da OAB-RJ Wadih Damous.
Policiais da Delegacia da Gomes Freire (5ª DP) investigam a hipótese de atentado contra Damous. Segundo Damous, que não estava no edifício, a detonação do explosivo seria um ato contrário a sua participação na Comissão da Verdade que será criada pelo Estado. “Soa como uma provocação, uma tentativa de intimidação porque na, segunda-feira (11), o governador Sérgio Cabral vai nomear os integrantes da Comissão da Verdade estadual e eu serei o presidente. Damous, que atualmente preside a Comissão de Direitos Humanos da OAB nacional, participaria de uma sessão do Conselho Pleno da OAB, que decidiram pela expulsão de dez advogados.
MORTE - O atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, lembrou o atentado que matou Lyda Monteiro, secretária que morreu após abrir uma carta-bomba endereçada ao presidente da ordem, em 1980, dentro do prédio. Santa Cruz disse que a morte de Lyda será um dos primeiros casos investigados pela Comissão da Verdade Estadual, que vai apurar a morte de desaparecidos políticos no Rio de Janeiro, no período da Ditadura Militar.
No dia 27 de agosto de 1980, a funcionária da OAB Lyda Monteiro da Silva foi morta após abrir uma carta-bomba que teria sido destinada ao então Presidente do Conselho Federal da OAB, Eduardo Seabra Fagundes. A entidade tinha como vice presidente Sepúlveda Pertence. Até hoje, não foi identificado o responsável pelo envio da correspondência. O atentado era uma retaliação pela oposição da entidade contra o regime militar. Conselheiros da OAB atribuem o envio da carta-bomba a grupos extremistas de dentro do próprio governo militar, insatisfeitos com o início da abertura do regime à democracia que começava a ocorrer naquela época. O atentado que matou a secretária da OAB foi um dos três que ocorreram naquele dia no Rio. No mesmo dia 27, mais duas cartas-bomba foram entregues, no Rio de Janeiro: uma no Gabinete do vereador Antonio Carlos de Carvalho (PMDB) e a Outra na sede do Jornal “Tribuna da Imprensa". Era o governo do general João Baptista de Oliveira Figueiredo. Inquéritos foram abertos, porém nada foi apurado.
A data da morte de Lyda Monteiro tornou-se o Dia Nacional de Luto dos Advogados.
Comissão vai investigar crimes cometidos pela ditadura
Integrada por nomes como os dos advogados Wadih Damous, Marcelo Cerqueira e Eny Moreira, do jornalista Álvaro Caldas e do ex-senador Geraldo Cândido, a Comissão Estadual da Verdade tem como função investigar os crimes cometidos no estado durante a ditadura militar. Sobre o trabalho da entidade, disse Damous: “Vamos trabalhar em conjunto com a Comissão Nacional da Verdade, que já tem um acervo de informações. Essa simbiose, essa relação, será estreita. Queremos, inclusive, encerrar o trabalho antes do prazo, junto com a comissão federal, e que vai demandar um trabalho intensivo de investigação".


