Prefeitos eleitos da Baixada Fluminense tiveram um encontro com o comandante-geral da Polícia Militar, Wolney Dias, com quem discutiram parcerias para conter a violência e a criminalidade na região, especialmente em tempos de crise financeira. Os representantes de seis municípios da região, além de um da capital, participaram de um almoço na última sexta-feira (9), no restaurante La Dolce Vita, em Nova Iguaçu. A criação de um consórcio entre os municípios da Baixada, como ocorre na área da saúde, foi o principal assunto debatido no encontro.
A iniciativa seria semelhante ao que já acontece na área da saúde com o Cisbaf (Consórcio Intermunicipal de Saúde da Baixada Fluminense). Através do novo consórcio, as prefeituras fariam a disponibilização de recursos para a contratação de policiais de folga através do Proeis (Programa Estadual de Integração na Segurança) e do RAS (Regime Adicional de Serviço).
O “cinturão de segurança", proposto pelo prefeito eleito de Nilópolis, Farid Abrahão, ganhou o apoio dos demais prefeitos presentes. Entre as reivindicações levadas ao comandante-geral da PM, a principal foi o reforço do policiamento nas cidades. Wolney Dias apresentou uma proposta para solucionar o problema. Segundo ele, atualmente, a fórmula de cálculo do efetivo nos batalhões é baseada na extensão territorial e densidade populacional. O novo cálculo incluiria o índice de criminalidade, levando-se em conta os estudos de mancha criminal. A proposta está em estudo avançado.
O encontro, considerado histórico, teve a participação dos prefeitos eleitos Dr. João (São João de Meriti), Farid Abrão David (Nilópolis), Rogério Lisboa (Nova Iguaçu) e Jorge Miranda (Mesquita), além dos vices Gelson Azevedo (Meriti), César Melo (Japeri), Waltinho Paixão (Mesquita), Carlos Machado (Queimados) e Fernando MacDowell, representando o prefeito eleito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. A coronel Claudia Lovain, do 3º CPA (Comando de Policiamento de Área da Baixada), comandantes de vários batalhões e alguns secretários de Segurança dos novos mandatários também estiveram presentes.
O Comandante geral da PM falou ao Capital sobre o encontro: “Todos aqui presentes têm preocupação com a segurança pública. Temos hoje uma crise no governo do Estado e faz-se necessário uma parceria da Polícia Militar com diversos órgãos e essa integração é muito importante. Eu acho que a partir do momento que estabeleçamos parceria entre o estado, Polícia Militar e os municípios, o serviço prestado com certeza será melhor, nós teremos condições de prestar um melhor serviço à população. Eu creio que ao longo de 2017, já com alinhamentos efeitos nesse mês de dezembro, nós teremos um ano propício, os resultados operacionais serão melhores e toda a nossa sociedade ganhará com isso. Vamos trabalhar de forma a aumentar a sensação de segurança, de forma que as pessoas se sintam mais seguras".
O coronel PM Francisco Dambrosio, que vai ocupar a pasta da segurança em São João de Meriti, também se manifestou ao Capital: “A segurança pública está passando por um momento muito difícil. O Estado está em calamidade com a falta de recursos e isso se reflete nos batalhões da Polícia Militar. Nós achamos por bem fazer essa reunião para que os prefeitos se inteirassem dos problemas. As prefeituras também fazem parte do contexto de segurança pública, atuando nos delitos menores. Eu me arrisco a dizer que dentro de mais ou menos 10 anos, em grande parte, essa área estará municipalizada. A gente está se antecipando a isso. Temos muitas parcerias que podem ser levadas à frente", assinalou o militar.
DR. JOÃO (São João de Meriti):
“O Rio de Janeiro precisa de fato da ajuda do governo federal"
- Se o governo federal não ajudar o Rio de Janeiro, nós não vamos resolver esse problema. Nossas estradas estão desprotegidas de policiamento e a PM não pode agir neste espaço, que está livre para o tráfico e a ação de bandidos. Então, o governo federal precisa ajudar nossas polícias civil e militar - disse ao Capital o Dr. João, prefeito eleito de São João de Meriti, que fez um apelo para que essa união se aprofunde daqui pra frente. “São João de Meriti, Mesquita, Nova Iguaçu, Nilópolis não podem tentar sozinhas resolver o problema da segurança. Vamos ficar enxugando gelo. Estamos imbuídos da missão de proteger a nossa população", acrescentou.
Ele comentou sobre as UPPs: “A filosofia do Beltrame é ocupar o espaço dos bandidos nas favelas. Ocupou e não evoluiu, aí os bandidos voltaram. Agora o que acontece: você finge que não me vê e eu não mexo com você. Não estou querendo desmoralizar o programa da UPP, mas substitui, coloca a Guarda Nacional". E emendou: “Na verdade, se partir para o confronto, vai morrer tudo que é policial, os bandidos estão mais bem armados que os policiais".
O futuro prefeito falou da necessidade de promover melhorias na Guarda Municipal e disse ainda não estar convencido de armá-la. “É temeroso colocar uma arma na mão de um guarda municipal sem o devido treinamento, que não é feito pelo município, nem de um dia para o outro. Isso tem que ser feito dentro de um tempo maior, treiná-la também para atuar na porta das escolas e creches, não ficar na rua junto com a polícia tomando dinheiro em blitze desnecessárias. A guarda tem que fazer o seu trabalho constitucional, especialmente nas escolas, pois o traficante fica lá na porta assediando as crianças porque não tem policiamento ali, é aí que ela tem que agir".
ROGÉRIO LISBOA (Nova Iguaçu):
“A Dutra, via Light e o Arco Metropolitano, tudo facilitador de fuga"
O futuro prefeito de Nova Iguaçu, Rogério Lisboa, também deu seu depoimento para o Capital: “Ontem nós tivemos uma conversa com todos os prefeitos sobre saúde, que é um outro tema comum a todos os municípios. Temos um consórcio que junta os municípios em uma única personalidade jurídica para debater esse tema. Ele é um instrumento importantíssimo para a gente dar uma saída para a saúde na região. Porque o problema é comum, quando você faz bem à saúde no município e o outro não vai tão bem, aquele que não vai também acaba destruindo o outro porque migra o paciente. Ou todos funcionam bem ou estamos fadados a não andar para a frente. Com relação à segurança é mais ou menos a mesma coisa: temos uma série de municípios cortados por vias importantes, como a Dutra, a via Light e o Arco Metropolitano, isso tudo é facilitador de fuga - disparou Lisboa.
- Então, se eu resolvo a questão da segurança de Nova Iguaçu eles migram para os outros municípios. Ou fazemos um movimento organizado, em conjunto, ou vamos ficar enxugando gelo, cada um cuidando de si. O caminho que devemos seguir é unir todos os municípios da Baixada, devemos sim constituir um consórcio, com personalidade jurídica, para tratar desse assunto de forma comum discutindo idéias e executando ações - observou.
E concluiu: “A segurança pública, em um debate municipal, até agora não era o principal tema, mas nessa eleição destacou-se bastante, de uma maneira jamais vista. Temos que fazer uma administração decente e de qualidade, monitorar a cidade com câmeras principalmente onde a mancha da criminalidade é maior, criar a guarda municipal onde não tem e trabalhar articulada com a Polícia Militar e fazer parceria com o PROEIS, essas são algumas das ações que pretendemos desenvolver".
FARID ABRÃO DAVID (Nilópolis)
“O povo da Baixada tem medo de ir na rua. É um terror"
Ao falar do encontro, Farid Abrão disse: “Acho que conseguimos passar a nossa mensagem, que era integrar as cidades, ampliar a nossa contribuição para a Polícia Militar. Você vai ao Governador, ele diz não teR recursos, você vai ao comando geral e também não tem meios porque não recebe do Estado. Você fica nesse problema. É importante as prefeituras estenderem as mãos", avaliou.
- O povo da Baixada Fluminense tem medo de ir na rua, é um terror. Na minha cidade se instalou o terror, as pessoas depois das 20 horas se recolhem. De carro é difícil se transitar, é um risco muito grande. Temos que agir, não ficar apenas neste encontro. Temos que elaborar convênios, nós precisamos da presença constante dos batalhões, os coronéis têm estendido a mão nessa reciprocidade. Vou fazer esse convênio com o PROEIS, capacitar a minha Guarda Municipal, vou comprar os carros que forem necessários, colocar cabinas. Hoje o bandido chega em Nilópolis, assalta, sai do município com o produto do roubo e retorna para assaltar de novo, porque não tem abordagem, você não vê policial na rua. A polícia tem que fazer abordagem, a gente vai diminuir essa criminalidade com ações como essa - acredita.
Sobre a criação de um consórcio na área de segurança, comentou: “Existe o Consórcio Intermunicipal da Saúde da Baixada Fluminense, o SISBAF. Acho boa essa ideia de criar um para a segurança. Vamos adiante com essa iniciativa".


