A Assembleia Legislativa do Estado - Alerj concluiu na semana passada a votação do projeto que autoriza a privatização da Cedae - Companhia Estadual de Águas e Esgotos. O deputado Jorge Moreira Theodoro, o Dica (PTN) concedeu entrevista ao Capital, na qual comentou a posição tomada em plenário e o futuro da recém criada Central de Água e Saneamento de Duque de Caxias pela Prefeitura.
- A autorização para privatizar a Cedae chegou em um momento de profunda crise financeira do Estado do Rio. Os deputados não poderiam omitir-se nesse momento. Ficamos diante da Escolha de Sofia (*). Ou votávamos pela manutenção dos hospitais e escolas, pelo pagamento do funcionalismo, incluindo os policiais militares e civis, e no futuro das crianças e empregos no Estado ou por manter a CEDAE uma empresa pública. Votamos para salvar hospitais, escolas, batalhões, delegacias, núcleos sociais e esportivos. Estávamos diante de uma grande anormalidade, a morte econômica Estado. Tínhamos que proporcionar a chance de vida, de recuperar o crédito; do contrário, seria um caos completo, só Deus sabe qual seria o destino do nosso Estado e da população - explicou o parlamentar. “Já tivemos os batalhões cercados pelas mulheres dos policiais, que deram voz à luta pelo pagamento dos salários. Mas tivemos também a consciência do policial militar, ao qual devemos render nossas homenagens, que não abandonou a população naquele momento. Fizemos a nossa parte, esperamos que os deputados federais e o governo federal façam a deles", acrescentou.
- Não podíamos pensar apenas nos funcionários da empresa, tínhamos que pensar em mais de seis milhões de pessoas, a população do Estado. Era preciso que garantir o funcionamento da máquina pública - observou. O deputado disse que apresentou duas emendas ao projeto: uma que instituía um programa de demissão voluntária para todos os cerca de 5 mil servidores, podendo optar por continuar sendo funcionários do Estado, e outra que permitia a retomada da Cedae pelo Estado, caso o estado tenha se recuperado financeiramente. As duas propostas porém foram derrotadas. “Eram emendas de importância, até porque a Cedae é uma empresa lucrativa", assinalou. “Essa última está temporariamente arquivada, o governo tomou conhecimento, e ela pode ser feita lá na frente, é possível". Segundo o deputado, a Cedae tem seis meses para analisar de que maneira apresentará as ações. “Não se sabe, porém, se vai haver algum grupo interessado na privatização", questionou.
CONTRATO - Indagado sobre a criação da empresa de água de Duque de Caxias Dica disse que “existe um grande problema. O atual prefeito [Washington Reis, PMDB] assinou, na gestão anterior dele, a prorrogação do contrato com a Cedae por mais 30 anos. E aí cabem várias indagações: a Cedae vai fazer prevalecer o contrato assinado lá atrás? Ou o prefeito fará um distrato? Ou será que o prefeito vai falar que não assinou ou que estava brincando? Então, para ele criar a companhia municipal de água, tem que primeiramente fazer um distrato com a Cedae, tornar sem efeito aquilo que ele assinou? Outro ponto: nós não temos água, teremos que comprar água do Guandu, cairemos nessa roda viva. Além disso, os dutos e as estruturas que a Cedae possui e está ampliando serão vendidas à companhia municipal? Ou ela [a nova companhia] vai construir uma rede, paralela? E os milhares de hidrômetros, receberão ordem de despejo? São questões que eles não falam. São coisas que nem tão cedo serão resolvidas. Resolve apenas de boca mas não nas ações. Eu não acredito seriamente que a nova empresa vá vingar. É mais uma falácia, como muitas outras que nós veremos por aí", comentou.
O deputado encerra avaliando, por estimativa, que implantar a nova companhia vá custar pelo menos R$ 500 milhões. “O município não tem recursos para isso, a arrecadação não comporta. Esse dinheiro eles não vão tirar do BNDES ou do governo federal, não acredito. Então tem que vir de fora. Não acredito sinceramente que vai se materializar. E se isso ocorrer, é um projeto para daqui 10, 12, 15 anos. E eu acho muito pouco provável que esse governo se mantenha nos próximos quatro anos".
(*) “A Escolha de Sofia" é um drama norteamericano de 1982, dirigido por Alan J. Pakula e estrelado por Meryl Streep, Kevin Kline e Peter MacNicol, entre outros. Ganhador de Oscar e vários outros prêmios nos EUA, Reino Unido e Japão. A película é baseada no romance de 1979 de William Styron. Trata de uma mãe polaca, filha de pai anti-semita, presa em um campo de concentração durante a Segunda Guerra e que é forçada por um soldado nazista a escolher um de seus filhos para ser morto. SE ela se recusasse a fazer a escolha, ambos seriam mortos.


