Desde o tempo da colonização, a polícia sempre foi o braço armado do Governo, geralmente usado contra o povo. A precariedade de meios, o improviso, a falta de filmes para a polícia técnica, a falta de munição para as armas, o apadrinhamento político no preenchimento dos cargos de direção ao longo dos últimos Séculos mostram uma polícia mais repressiva do que investigativa. Por outro lado, o Brasil nunca teve uma política penitenciária que visasse, como determina a Lei, a recuperação dos criminosos. Por isso, passou a fazer parte do folclore político nacional a história de um banqueiro do jogo do bicho, condenado pela juíza Denise Frossard, que mandava buscar suas refeições em restaurantes de luxo, promovia churrascos no presídio e ainda reformou a cela onde passava a noite, tornando-a mais digna de abrigar um cidadão, mesmo que ele seja um criminoso.
Ainda agora, a presidenta Dilma Rousseff aciona o ministro da Justiça para que seja investigada a atuação da Polícia Federal em mais um escândalo de corrupção no Governo. As cenas de presos do alto escalão do Ministério do Turismo, conduzidos algemados para os camburões da PF chocaram a opinião pública, mas essencialmente pela desfaçatez com que o dinheiro público passa, rapidamente, para o bolso de alguns grupos políticos. Essas cenas deveriam ser exibidas em cadeia nacional de TV, em horário requisitado pelo ministro da Justiça, para mostrar ao povo que o “reino da impunidade" havia sido banido da nossa história!
Ao invés de exibir essa atuação da Polícia Federal - cumprindo ordem judicial - como um marco do novo governo, o que vemos é a presidenta usando o seu poder de mando, como Chefe da Nação, para punir o estrito cumprimento do dever por parte da PF. Diariamente, milhares de pessoas são presas - justa ou injustamente - por todo o país, colocadas em camburões e levadas para xadrezes imundos sem que essas cenas afetem o coração de mãe amantíssima da presidente da República. Ela só ficou chocada pelo fato de, entre 38 presos, estarem os ocupantes dos principais cargos do Ministério da Justiça, todos nomeados por ela. Ou o sistema de Inteligência do governo não aferiu a honorabilidade dos escolhidos para esses cargos, como é feito pelo dono de qualquer tendinha do interior do País quando contrata um novo funcionário, ou existe, no interior do Governo, uma norma não escrita de que “figurões" não podem ser ofendidos em sua imagem ao serem exibidos presos, por mais abjeto que seja o crime praticado - como o desvio de recursos do SUS ou da merenda escolar - enquanto milhões de “pés de chinelo" são agredidos diariamente com as notícias de um novo escândalo em órgãos importantes do Governo.
Como a presidenta imagina a reação da família de um motorista, morto em acidente numa estrada federal cheia de buracos, onde o Dnit teria gastado milhões em obras de recuperação e pavimentação, ao descobrir que toda essa dinheirama acabara na conta de uma ONG “amiga do governo?" Ou como se sente os familiares de um paciente que, internado num hospital público, dorme e acorda em macas colocadas nos corredores, por falta de leitos, enquanto milhões são gastos na construção de novos hospitais, que não podem ser inaugurados por problemas na agenda do governador? Ou como se sentiu a população de Duque de Caxias ao descobrir que o presidente Lula veio ao município em setembro de 2008 inaugurar, ao lado do governador Sérgio Cabral, um hospital - que Lula garantiu que teriam um atendimento melhor que o Sírio/Libanês em São Paulo - com equipamentos de última geração encaixotados e esquecidos na calçada do hospital?
Um ministro do Supremo Tribunal ficou profundamente chocado com a imagem de um banqueiro preso pela Polícia Federal por ordem judicial, acusado de diversos crimes tipificados no Código Penal. A reação do ilustre magistrado foi tal que o STF decidiu “normatizar" o uso de algemas por parte da PF. No caso das incursões das Polícias Civil e Militar em comunidades pobres, o uso das algemas é perfeitamente aceito por suas Excelências, pois a cadeia, no Brasil Colônia ou na República, continua sendo lugar privativo de pobres, pretos e prostitutas, os tristemente famosos três “Ps".


