A dois anos da Copa do Mundo, mas às vésperas de uma nova Olimpíada, o Brasil não tem uma seleção de futebol que o torcedor possa confiar. Com o amadorismo dos nossos cartolas, estamos exportamos garotos de 14 a 16 anos, que tenham "pinta de craque", enquanto os craques que ficam por aqui estão nas mãos de empresários, que alugam esses jogadores para times que possam pagar ou tenham bastante visibilidade para exibi-los pela TV ou em vídeos promocionais. Em termos de seleção, os treinadores, embora com cargo fixo na CBF, são manipulados pelos cartolas para promoverem jogos-exibições nos quais o que menos interessa é promover o futebol brasileiro e formar uma Seleção digna de vestir a camisa "Canarinho", manto sagrado que já vestiu verdadeiros craques, como Garrincha, Didi, Zito, Sócrates, Falcão, Pelé, Nilton Santos, Leônidas, Gerson, Tostão e tantos outros. E quando aparecem jovens como Oscar, Neymar e Ganso, sopradores de apito permitem que os adversários usem do ante futebol para acabar com as firulas dos craques, pois os pernas de pau adversários consideram essas firulas uma imperdoável ofensa!
Pior ainda é a situação da Cozinha, onde o Brasil, grande produtor de feijão, vive o vexame de importar tal iguaria da China, assim como já importamos arroz da Argélia, que acabou jogado no lixão de Jardim Gramacho, pois estava contaminado por fungos mortais. Como a nossa política agrícola está voltada para o agronegócio, não temos uma política de estoques reguladores, que evitem a falência dos produtores nas grandes safras e prejuízos para os consumidores em caso da interferência climática negativa nas lavouras.
Assim, a inflação no preço dos alimentos –que já teve personagens tão pitorescos como o chuchu e o frango – em decorrência da seca no Sul e Nordeste e o excesso de chuvas no Norte pegou o Governo no contrapé, pois a alta de preços dos alimentos é uma perversa transferência de renda do pequeno produtor, quando ocorre a quebra da safra por falta ou excesso de chuva, como este ano ocorreu com o feijão e o milho – para as contas bancárias dos intermediários. Sem estoques reguladores, o Governo não consegue socorrer o produtor em dificuldades, muito menos regular o mercado em caso de queda da produção. Nesse mesmo diapasão, o consumidor paga caro pelo óleo de soja, que expulsou do mercado produtos similares de origem vegetal como o milho, o algodão, o amendoim, ou animal, os suínos. No caso do óleo de soja, a perversidade está em dois níveis: é um subproduto da gramínea, antes jogado no lixo e agora cotado como "commodities", isto é, o mercado internacional da soja está nas mãos dos grandes conglomerados e o consumidor brasileiro é obrigado a pagar o produto nacional como se fosse importado.
No caso do açúcar, a coisa é mais dramática, pois o consumidor brasileiro, tanto do próprio açúcar, como do etanol-álcool, é cobrado pela cotação internacional do açúcar, pois os usineiros, sem qualquer pudor, decidem arbitrariamente se a próxima safra de cana será utilizada na produção de açúcar ou de álcool, que virou etanol para seguir os ditamos do mercado internacional. Não é por outra razão que a produção dos veículos do tipo flex – com o uso de diversos tipos de combustível – provocou um estranho fenômeno: em alguns centros consumidores, o etanol-álcool chegou a custar igual ou mais caro que a gasolina. Como na comparação de consumo o etanol-álcool só é interessante se custar menos de 70% do preço da gasolina, quem tem carro flex se livrou da ditadura dos usineiros, cujo lobby é bastante podero$o.
Assim, o consumidor vê o feijão e o arroz desaparecerem da sua mesa num piscar de olhos! Afinal, o consumidor continua sendo apenas um pequeno detalhe na nossa política econômica, mais preocupado com a sobrevivência de meia dúzia de montadoras de automóveis e das empresas da Zona Franca de Manaus, especializadas na montagem de peças oriundas da China, de Taiwan e até da Europa.


