O médico, ex-deputado federal e ex-prefeito de Duque de Caxias, Alexandre Cardoso (PSD), em entrevista ao Capital, defendeu que é preciso discutir de onde vem o dinheiro e como será gasto nos municípios e, sobretudo, “falar a verdade à população, pois a grande maioria dos candidatos diz para onde vai o dinheiro, mas não garante que ele vai existir e nem de onde ele vem, criando sonhos e promessas impossíveis de serem cumpridas".
E acrescenta: “Os países estão em crise, os estados estão em crise, o comércio, a indústria e as pessoas também, fazem campanha e governam os municípios como se a cidade não vivesse essa realidade. O meu livro [“Sua cidade, Sua casa", lançado no final do ano passado]" é, antes de mais nada, para dar transparência aquilo que realmente pode ser feito nas cidades".
- O que é esse livro? Ele é um estímulo para que as pessoas queiram conhecer mais sua cidade e debatam os problemas. Enfim, que conheçam de onde vem o dinheiro e onde ele será gasto, na educação, na saúde, no planejamento, na folha de pagamento da prefeitura, etc, seja Caxias, São João de Meriti, Nova Iguaçu ou Rio de Janeiro. Tem de ter planejamento. É preciso que elas conheçam quanto é que o município pode investir ou gastar em custeio e, principalmente, como gastar - recomendou.
Alexandre aprofundou o assunto: “Será que os candidatos sabem que o prefeito não tem nenhuma interferência em 70%, 75% e, às vezes, 90% da renda de uma cidade? O gestor não participa em absolutamente nada dessa renda, que são de transferências dos governos estaduais e federal. Ele só cuida, por exemplo, do IPTU, ISS e ITBI e outros, que em Belford Roxo significa 15% da receita, em Nova Iguaçu 25% e, em Caxias, 30%. A população nem tem essa informação e fica iludida, principalmente, nos tempos de crise", observou.
Com relação à gestão propriamente dita, Cardoso disse que considera fundamental que o gestor tenha coragem de enfrentar aquilo que ele chama de “doença principal". “Por exemplo, tem muito gestor que cuida da febre (sintoma), mas não cuida da infecção (causa). Em Caxias, na minha gestão, enfrentamos as causas, modernizamos a gestão", observou, lembrando que fez um concurso para fiscais, o que não se fazia há mais de 30 anos, concurso para professor, eleições para diretor de escola, além de um georeferenciamento e reformulação da secretaria de Administração, entre outras medidas importantes. “São coisas que muitas vezes o cidadão não enxerga mas são de grande importância nas receitas dos municípios".

- Dobramos o programa de saúde da família. Quando eu cheguei tinha aproximadamente 22% de cobertura, deixei com mais de 45%. O morador de um bairro não sabe o que foi construído no outro. Para darmos exemplos: o morador do Amapá sabe que foi construída a Unidade de Saúde em Vila Maria Helena? O de Parada Angélica sabe que foi construída outra no Parque Fluminense ou o do Jardim Gramacho sabe que foi construída no Amapá ou Nova Campina? O Programa de Saúde da Família é para cuidar da diabete, da hipertensão preventivamente, para impedir que o paciente tenha que parar em uma UTI. Isso é planejamento em saúde - observou.
- Quando eu instalo uma UPA infantil, é para qualificar o Hospital Infantil – explicou. Quando eu abro a Policlínica e tenho várias unidades intermediárias, é para a Unidade da Família atender a primeira consulta e encaminhar para unidade secundária, que é essa Policlínica. Atendimento primário, secundário e terciário. Este planejamento é para 10 anos. Não é para tratar sintomas, passar esmalte, batom e botar o doente bonito. Não é para fazer marketing em saúde. É para tratar a causa", advertiu.
Alexandre Cardoso abordou ainda a realidade dos aposentados. “O IPMDC deveria ter R$ 1,5 bilhão aplicado, hoje tem menos de R$ 30 milhões. Afirmei que era importante dar transparência ao IPMDC, propus descontaminar a Cidade dos Meninos e fazer dela um patrimônio do órgão. Íamos resolver o problema do aposentado da cidade, mas ninguém discute isso, ninguém discute como capitalizar o órgão, que tem uma despesa crescente", lembrou.
Sobre a folha dos servidores ativos, comentou: “Eu tenho que me desculpar com o servidor, mas foi uma decisão dura. Quando cheguei aqui, tinha duas folhas atrasadas do governo anterior. Eu paguei em dois, três meses. Eu nunca deixei de dar o reajuste da inflação. Pela primeira vez em 20 anos não houve reajuste da inflação, foi ano passado. Sabe quanto é que custou isso para o funcionalismo? Uma folha, mais ou menos R$ 82 milhões. Você bota 6%, 7% de inflação, dá mais ou menos R$ 5 milhões ou R$ 6 milhões por mês. Multiplica por 13, dá cerca de R$ 72 milhões, quase uma folha. Então tem uma folha de Caxias que foi paga este ano pelos próprios servidores e, ao que parece, eles não perceberam isso ainda. É muito importante que a gente fale a verdade. Os problemas de São João de Meriti, Rio de Janeiro, Duque de Caxias e Belford Roxo são muito semelhantes".
Questionado sobre não ter sido candidato à reeleição, disse: “Eu não fui candidato a prefeito novamente porque não queria ir para a rua mentir. Quem conhece gestão de municípios sabe que não ia ter o dinheiro para fazer o que foi prometido na rua - quase em todas as cidades as promessas eram 10 vezes a realidade. Quando o político sonha sonhos impossíveis, quem paga é a cidade, não são sonhos, são irresponsabilidades".
- Eu entreguei a cidade funcionando – reafirmou Alexandre. “Tinham coisas atrasadas? Tinha. Eu não estou aqui para enganar, mas eu chamo qualquer um para o debate. Não adianta crucificar um prefeito de Caxias, de Meriti ou Belford Roxo. Nós temos que qualificar os congressistas para discutir as cidades. Sou um municipalista, temos que descentralizar o dinheiro de Brasília. Porque se não fizermos isso, o futuro será sombrio. Esse modelo de gestão pública não é bom para ninguém porque leva as prefeituras à falência. O servidor não vai receber, vão perder ainda mais qualidade, quer dizer, não vai ter futuro".
Ao ser perguntado sobre a possibilidade de ser candidato a Deputado Federal ou Senador, Alexandre Cardoso respondeu: “Tenho até maio, junho, para tomar uma decisão. Eleição é maratona: quem sai na frente se cansa e fica no meio do caminho", disparou.


