Nesta semana foram comemoradas duas datas importantes na vida política do País: o suicídio de Getúlio Vargas (1954) e a renúncia de Jânio Quadros (1961). No primeiro caso, o suicídio foi o trágico desfecho para uma crise política derivada de atos criminosos oriundos dos porões do Palácio do Catete, sede do Governo Federal no Rio de Janeiro como Capital da República. No caso da renúncia, foi o resultado de uma tentativa de golpe por parte do presidente renunciante.
Uma das mais brilhantes cabeças pensantes do país, o jornalista Carlos Lacerda desenvolvia uma campanha de denúncias sobre o comportamento do Governo Federal, focado no apoio dado pelo Banco do Brasil ao jornalista Samuel Wainer, fundador do jornal “Ultima Hora", uma tentativa do Governo de criar uma imprensa a favor. Ligada aos sindicatos e ao PTB, a “Última Hora" era um jornal chapa branca, a serviço do Governo. E Lacerda aproveitou da situação de dependência de Samuel Wainer do patrocínio oficial para atacar o Governo. No rastro dessa campanha, surge um personagem que vivia nas sombras do Catete: o tenente Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio. Sob pressão da Aeronáutica, a Polícia Civil descobriu que fora Gregório quem decidira eliminar fisicamente Carlos Lacerda. Para isso ele determinou ao inspetor de polícia Climério Eurides de Almeida que contratasse um grupo de pistoleiros, os quais deveriam matar o jornalista. No atentado, praticado na Rua Toneleros, em Copacabana, morreu o major aviador Rubens Vaz, amigo pessoal de Lacerda e que enfrentara os pistoleiros. Lacerda acabou ferido com um tiro no pé. A partir daí, a pressão para a renúncia de Vargas só aumentou, chegando ao ápice na manhã do dia 24 de agosto de 1954, quando o presidente se matou com um tiro no peito, deixando uma carta em que afirmava que “deixava a vida para entrar na História". Na carta, Getúlio Vargas, em momento algum, comentou à atuação de sua guarda pessoal na organização do atentado contra Carlos Lacerda, limitando-se a enumerar seus inimigos como adversários da criação da Petrobrás (em 1953) e da futura Eletrobrás, dando um viés nacionalista ao seu governo.
No caso da renúncia de Jânio Quadros, o “homem da vassoura", em 25 de agosto de 1961, o que houve foi uma canhestra tentativa de golpe de estado, em que o ex-governador de São Paulo acreditava que, deixando o Governo e acusando as forças ocultas que manobravam por trás e contra o Governo, o povo sairia às ruas, exigindo a sua volta triunfal ao Palácio do Planalto. Como a renuncia não causou a comoção esperada, Jânio pode tranqüilamente se refugiar em S. Paulo, onde era professor de português, sem qualquer manifestação popular.
Tanto no suicídio de Vargas, quanto na renúncia de Jânio, as chamadas forças vivas da não se mantiveram caladas diante dos acontecimentos. No caso do “Mar de Lama" que jorraria do Catete, como afirmava em seus artigos o raivoso Carlos Lacerda, nem a ABI, muito menos a OAB, deram o ar de sua presença. Hoje, quando, ao contrário do piscinão de Ramos, onde cada mergulho era um flas, no atual Governo a cada dia surge um novo escândalo, nem a ABI - depositária do ideário da Liberdade de Expressão - quando a OAB – tão atacada durante a Ditadura de 64, nada fazem.
Quanto à UNE, que teve papel decisivo na entrada do Brasil na II Guerra Mundial, na derrubada do Estado Novo, em 1945 e na campanha das “Diretas Já", ela foi devidamente seduzida pelo Tesouro, estando a serviço do Governo na desmobilização da juventude como força política importante numa campanha pela punição dos corruptos. Foi assim no caso do ‘mensalão’, da quebra do sigilo bancário de um modesto faxineiro de Brasília, dos panetones do ex-governador Arruda, como agora na crise nos ministérios do Governo Dilma Rousseff.
Pelo visto, as principais instituições da chamada sociedade civil desistiram de enfrentar a corrupção, preferindo o bem-bom de uma viagem a Brasília em avião da FAB, ou uma sinecura numa autarquia qualquer ou mesmo uma modesta fundação. Parece que ABI, OAB e UNE estão apostando no slogan de uma seguradora: se aborrecer (com a corrupção) por quê?


